18 de julho de 2016

Formação de leitores e razões para leitura

*Ricardo Azevedo

Fala-se muito em “formação de leitores”. É “politicamente correto” elogiar a literatura leitura…
Mas o que é exatamente um leitor? De um certo ponto de vista,é possível dizer que leitores são simplesmente pessoas que sabem usufruir os diferentes tipos de livros, as diferentes “literaturas” – científicas, artísticas, didático-informativas, religiosas, técnicas, entre outras – existentes por aí. Conseguem, portanto, diferenciar uma obra literária e artística de um texto científico; ou uma obra filosófica de uma informativa. Leitores podem ser descritos como pessoas aptas a utilizar textos em benefício próprio, seja por motivação estática, seja para receber informações, seja como instrumento para ampliar sua visão de mundo, seja por motivos religiosos, seja por puro e simples entretenimento…
Todas as “literaturas”, é é preciso dizer logo, são importantes e têm sua razão de ser. A indiferenciação entre elas, entretanto, pode afastar as pessoas da leitura…
É importante deixar claro: para formar um leitor é imprescindível que entre a pessoa que lê e o texto se estabeleça uma espécie de comunhão baseada no prazer, na identificação, no interesse e na liberdade de interpretação. É necessário também que haja esforço, e este se justifica e se legitima justamente através dessa comunhão estabelecida.
Dentre as várias “literaturas” existentes, a que aqui nos interessa é a que pressupõe a motivação estética.Refiro-me a essa forma de arte feita com palavras convencionalmente chamada de Literatura. Vale a pena apontar algumas de suas principais características.
Em primeiro lugar, falar em Literatura significa remeter obrigatoriamente à ficção e ao discurso poético.
Através do discurso poético, abrimos mão da linguagem objetiva, lógica, sistemática, impessoal, coerente e unívoca dos livros didático-informativos. Não por acaso, as obras didáticas costumam apresentar um discurso muito semelhante entre si, pois nelas a voz pessoal do autor praticamente desaparece. A razão é simples: esse tipo de livro pretende que todos os seus leitores cheguem à mesma e única interpretação. Para atingir tal objetivo não é possível, evidentemente, recorrer a discursos que possam resultar em múltiplas leituras…
Ao contrário, o discurso poético, o texto literário por definição, pode e deve ser subjetivo; pode inventar palavras; pode transgredir as normas oficiais da Língua; pode criar ritmos inesperados e explorar sonoridades entre palavras; pode brincar com trocadilhos e duplos sentidos; pode recorrer a metáforas, metonímias, sinédoques e ironias; pode ser simbólico; pode ser propositalmente ambíguo e até mesmo obscuro. Tal tipo de discurso tende à plurissignificação, à conotação, almeja que diferentes leitores possam chegar a diferentes interpretações. É possível dizer que quanto mais leituras um texto literário suscitar, maior será sua qualidade…
Através de uma história inventada e de personagens que nunca existiram, é possível levantar e discutir, de modo prazeroso e lúdico, assuntos humanos relevantes, muitos deles, aliás, geralmente evitados pelo discurso didático-informativo – e mesmo pela ciência – justamente por serem considerados subjetivos, ambíguos e imensuráveis…
Quais são eles? Entre outros: as paixões e as emoções humanas; a busca do autoconhecimento; a tentativa de compreender nossa identidade (quem somos); a construção da voz pessoal; as inúmeras dificuldades em interpretar o Outro; as utopias individuais; as utopias coletivas; a mortalidade; a sexualidade; a sempre complicada distinção entre a “realidade” e a “fantasia”; a temporalidade e a efemeridade; as inúmeras e intrincadas questões éticas; a existência de diferentes pontos de vista válidos sobre um mesmo assunto etc.
Crianças, na vida concreta, inconscientemente ou não, buscam seu autoconhecimento e sua identidade; têm sentimentos e razão; têm dúvidas, medos e prazeres; ficam perplexas diante da existência de múltiplos pontos de vista; têm dificuldades em separar realidade e fantasia; são sexuadas e mortais. Em suma, são essencialmente seres humanos…
Note-se que, justamente por abordar o contraditório, a Literatura, em vez de trabalhar com personagens idealizadas, previsíveis e abstratas – além de “politicamente corretas” – típicas dos livros pedagógicos, pode apresentar ao leitor seres humanos fictícios, mas complexos e paradoxais, mergulhados num constante processo de modificação e empenhados na construção de um significado para suas vidas…

* Escritor e ilustrador paulista, Ricardo Azevedo é autor de vários livros para crianças e jovens, publicados em vários países, como Alemanha, Portugal, México e Holanda. Ganhou quatro vezes o Prêmio Jabuti. Mestre em Letras, doutorado em Teoria Literária (USP) e pesquisador na área da cultura popular

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